A
lenda do Boi de Conchas
O Boi de Conchas, genuinamente de Ubatuba, surgiu no movimento cultural
Pirão Geral, baseado na lenda de autoria do contista Julinho
Mendes, que conta a saga de um boi nascido na cidade serrana de São
Luís do Paraitinga, num dia de São Pedro Pescador.
Cresceu com a promessa de seu dono, de um dia levá-lo a conhecer
o mar, e que, tempo mais tarde, se dirigiu sumindo no imenso oceano,
depois de mudar o próprio destino que era o de ser morto num
matadouro na cidade de Ubatuba; reapareceu saindo do mar tempos depois
ao som de uma viola; coberto de conchas e envolto por seres marinhos.
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A Lenda
da Gruta que Chora - Praia da Sununga (Do Tamoio ao Caiçara)
Sununga: Lugar
de barulho. Parada das trovoadas. Redutos das ondas estrondeantes.
Moradia dos seres uivantes. Praia do Deus Tupã. Lugar venerado
pelos Tamoios.
Em seu canto esquerdo, uma gruta, naturalmente escavada no rochedo.
Ali os pajés se reuniam e celebravam seus rituais ao Deus
Tupã.
Estranhou-se certa época o silêncio da Sununga, aquele
lugar de barulho calara-se. Diante de tal fato, e, curiosos em querer
saber o porque daquela situação, os silvícolas
dirigiram-se para a praia. O mar estava calmo como nunca esteve:
nem ventos, nem trovões, nem pássaros a gorjear...
o silêncio era total. Na areia um grande rastro que atravessava
de um canto a outro da praia, indo em direção a gruta.
No interior da gruta observava-se algo nunca visto, escuro e enrodilhado,
parecendo ser uma grande cobra. Reunidos e receosos os pajés
decidiram não molestar tal ser, pois achavam ser algo destinado
pelo Deus Tupã. Desde então, sempre em dias de Jacyassú,
jovens donzelas eram atraídas para aquela praia, dessas,
muitas nunca mais voltavam e outras voltavam sem o gosto pela vida:
não trabalhavam, não comiam, não bebiam, enfim
aniquilavam-se até a morte... Achavam os pajés ser
coisa da grande serpente. Assim queria o Deus Tupã...
Era o período das flores e a nona pituna jacyassú
estava pra chegar. Dois grandes acontecimentos estavam marcados
para acontecer: Um era o casamento da jovem Arecê, filha do
Cacique Pindobussu, com o jovem guerreiro Camuri, filho do pajé
Tijuaê. O outro acontecimento era a chegada de dois missionários
brancos.
A sununga continuava em seu silêncio...
Amanhecera um dia lindo com céu azul, águas brilhantes,
sol radiante. A noite seria maravilhosa, a festa seria grandiosa,
pois era o dia de jacyassú.
Os jesuítas já se faziam presentes, com suas vestes
estranhas carregavam um cajado e uma cruz presa a um cordão
sobre o pescoço. Vieram trazer a paz e ensinar o amor de
um novo Deus, diferente de Tupã. Fariam também o enlace
matrimonial do jovem casal.
O sol se punha atrás do pico do Corcovado e ao iniciar o
serão, ouviu-se um horripilante silvo seguido de um grito,
vindo da sununga...
A grande jacyassú já anunciava seu clarão.
Era chegado a hora ! Todos esperavam a linda Arecê, noiva
de Camuri, este que já estava no altar de flores, conchas
e plumas das mais diversas aves da fauna local. A lua saiu e ergueu-se
ao seu máximo zênite. Arecê não apareceu...
Aquele grito era de Arecê...
Toda tribo seguiu para a Sununga. Arecê estava lá em
prantos, isolada e enfeitiçada, sobre uma pequena mancha
de sangue...
Nem arcos e flechas, nem lanças e nem pajelanças,
atingiam aquele terrível ser da gruta.
Atingido em sua alma, Camuri tinha um único recurso: Recorrer
aos jesuítas.
- Quero ver o seu Deus expulsar aquele terrível dragão!
As dores também lhes eram grandes, e impulsionados pela fé,
Nóbrega e Anchieta seguiram em direção da gruta.
Nóbrega ajoelhou-se e pôs-se em prece, Anchieta estendeu
as mãos e riscou no ar o abençoado sinal da cruz.
Uma oração foi feita... Uma onda encapelou em ruidoso
marulhar e adentrou-se à gruta, extraindo de seu interior
o temível ser: metade dragão, metade serpente.
- Não voltarás mais aqui enquanto esse povo existir
! Proferiu Anchieta.
O Feitiço foi quebrado, Arecê se restituiu e o casamento
aconteceu. Diante do milagre os silvícolas foram aprendendo
a gostar do novo Deus. A Sununga voltou a ser o que era: lugar de
estrondosas ondas, parada das trovoadas, lugar de barulho.
“- Não voltarás mais aqui enquanto esse povo
existir !”
Do homem pré-histórico ao genocídio dos Tamoios,
a sununga, assim como sua gruta, sempre existiu. Resiste aos povos,
resiste ao tempo...
Amarelos, brancos e negros. Índios, portugueses e escravos.
Nessa miscigenação de raças surge o Caiçara;
homem de terra e mar, lavrador e pescador; religioso, ordeiro e
festeiro, povo de fé e liberto em sua terra; assim como o
índio e o negro o eram. Em cada praia um pessoal, em cada
pessoal um Cabral, um Souza, um Graça, um Pereira, um Barreto,...
Nomes de Portugal, assim como Joaquim, Manoel, Maria... Nascia Marcelina,
graciosa donzela, morena de olhos verdes, cabelos lisos, parecendo
índia; mistura dos Graças com os Pereiras. Moça
forte, prestativa, alegre e viva. Morava com seus pais no pé
do morro daquela península, entre a Sununga e o Lázaro.
A Sununga como sempre, bravia e ruidosa. O lázaro, um mar
em espelho, sempre manso e liso. Era da Sununga que Marcelina gostava.
Gostava de seu barulho, de suas ondas, de seu jundú. A tarde
ia pra lá e fica contemplando aquela beleza desértica.
Certo dia estranhou o silêncio da Sununga. No canto, observou
algo estranho adentrando a gruta. Voltou impressionada com aquilo,
lembrando da história que os pescadores contavam sobre um
tal dragão.
Findava a pesca da tainha e uma festa em agradecimento à
São Pedro pela boa pescaria acontecia na casa do compadre
Bastião. A congada e o xiba iam até o raiar do sol.
Marcelina não foi, estava com dor de cabeça e preferiu
rezar o terço. Foi a mãe, o pai e o irmão caçula.
Tainha assada e consertada não faltou. Os bate-paus da congada
e os tamanqueados do Xiba ecoava pelos cafundós do Lázaro.
João abusou da concertada e veio abraçado com Maria
e Pedrinho. Os galos dos terreiros já anunciavam o novo dia.
Ao se aproximar de casa observaram um vulto saindo de trás
da casa, indo para a sununga. Em casa Maria ouviu soluços
no quarto da menina; Marcelina chorava. O lençol da cama
estava manchado de sangue.
- O que aconteceu minha filha, porque choras? Perguntou a mãe.
- Estou sangrando mamãe e não consegui dormir esta
noite!
- Calma minha filha, não se preocupe, isso é coisa
de mulher, é sua primeira menstruação. Vou
fazer um chá para você dormir.
Marcelina dormiu... Desse dia em diante Marcelina não mais
saiu de casa, não fazia seus afazeres, não se alimentava
direito, e nem o terço rezava. Pensava a mãe ser aquele
problema de mulher. Mas o período de menstruação
passou e Marcelina continuava em sua penumbra; cada dia mais magra
e pálida. Toda noite soluçava...
Certa noite quem chorava era a mãe Maria; estava diante do
oratório e pedia a padroeira Aparecida que quebrasse a penumbra
da filha. Marcelina vendo o sofrimento da mãe contou-lhe
a verdade de seu estado:
“-Sabe mãe? Naquela tarde que antecedeu a festa de
agradecimento, eu fui até a praia da Sununga... o mar estava
calmo como nunca vi, não tinha onda e nem os pássaros
cantavam. Fiquei admirando aquela beleza quando de repente um bicho
estranho saiu do mar e entrou na gruta, pensava que fosse um grande
lagarto; continuei ali e mais uma surpresa me veio ao olhar: Um
moço louro saiu da gruta e veio em minha direção,
senti muito medo, mas não conseguia me mexer; o homem veio
vindo, veio vindo e se achegou a mim... era lindo, tinha os olhos
azuis; colocou a mão na minha cabeça e depois me beijou;
de repente saiu correndo e mergulhou naquele mar quieto... Depois
que vocês foram à festa eu fui deitar. No meu quarto
surgiu aquele bicho que tinha visto na praia... fiz forças
para gritar, mas nada saia de minha boca... procurei o terço
e não achei... Aquela cobra começou a se enrodilhar
e foi se transformando naquele moço louro de olhos azuis...
Ficou comigo a noite toda e só foi embora quando ouviu o
primeiro canto do galo. Me apareceu mais três noites e não
mais voltou ! Aquele homem me enfeitiçou, mãe... agora
não tenho vontade para nada... quero morrer mãe...
quero morrer !!!”
Aquela história convenceu Maria, que ao amanhecer já
estava na sacristia da igreja revelando o fato ao padre daquela
paróquia. Aquela história não era nova ao padre,
já tinha ouvido de seus superiores no período de estudos,
e também de populares sobre a lenda da Sununga. Foi se haver
com Marcelina... Beatas e religiosos faziam fervorosas orações
na casa de José... O padre então constatou a profunda
penumbra da menina. Prevenido em fé e orações
o padre se dirigiu, acompanhado dos fieis, em direção
a gruta da praia da Sununga... Pediu que os fiéis ficassem
a uma certa distancia e dessem as mãos em orações...
Levando numa das mãos um cálice com água, dirigiu-se
sozinho por cima da gruta, lá então estendeu a mão
direita e riscou no ar o abençoado sinal da Santa Cruz e
em seguida jogou sobre a gruta a água benta contida num cálice...
Uma onda encapelou em ruidoso marulhar adentrou-se à gruta,
extraindo de seu interior o temível ser: metade dragão,
metade serpente.
Em meio à oração o Santo Padre proferiu as
seguintes palavras:
-Não voltarás mais aqui enquanto esse povo Caiçara
existir ! E faça Deus que essa gruta, aos poucos,
seja entupida pelas areias da praia, jogadas pelas ondas desse mar.”
Marcelina voltou a ser aquela linda morena caiçara, cheia
de saúde, vida e alegria.
A gruta passou a chorar... Dizem os fiéis católicos
que aquelas gotas que pingam de dentro da caverna são da
água benta jogado pelo Santo Padre.
“- Não voltarás mais aqui enquanto o povo caiçara
existir !” Fica aí a profecia.
Dos verdadeiros caiçaras restam poucos...
Quem viu e quem vê, nota que a gruta encontra-se em processo
de fechamento e os caiçaras encontram-se em processo de extinção...
O homem pré histórico sumiu, a serpente apareceu aos
Índios. O Índio sumiu, a serpente apareceu aos Caiçaras.
O caiçara sumindo, pode ter a certeza que o dragão-serpente
aparecerá enfeitiçando as donzelas dos novos povos
que habitarão essa região.
Júlio
César Mendes – julinho – 24/12/2003
Nota:
A Lenda da Gruta que Chora da praia da Sununga é uma importante
lenda do folclore Ubatubano. Idalina do Amaral Graça, em
seu livro “Terra Tamoia” retrata a lenda na época
em que aqui viviam os silvícolas em fase de catequização
por Anchieta e Nóbrega. Já Washington de Oliveira
– “seo Filhinho”, em seu livro “UBATUBA,
lendas e outras histórias”, retrata a Lenda da Sununga,
junto ao povo Caiçara.
Tentando tornar a lenda numa só história, ou estória,
Eu, Júlio César Mendes, faço uma unifica versão,
retratando a história de Idalina com a de seo Filhinho; fazendo
com que a lenda seja a mesma, com o mesmo dragão-serpente
assim como a gruta e a praia da Sununga sempre foram e sempre serão
as mesmas.
A serpente voltará ! Está surgindo o MINESTIRA; povo
mistura de Mineiro, Nordestino e Caiçara. A serpente voltará
!
Versão publicada em junho/2006 no volume V da Enciclopédia
Caiçara “Festas, Lendas e Mitos Caiçaras”,
organizada pelo antropólogo da USP e diretor cientifico da
NUPAUB – Antonio Carlos Diegues. |
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Cruz
de Ferro
“Morava
Juca Mineiro com sua amada Mariazinha e o recem nascido Gregório
(gorinho), numa fazendinha lá pros sertões da cidade
de Cunha.
Mariazinha veio a conhecer o tão falado galanteador Basílio;
não resistiu aos seus encantos e não tardou a verem
à galopes na garupa com Basílio, lá pro lado
da Mantiqueira.
Gorinho já com 12 anos, perguntava sobre a mãe...
Juca então não querendo que o menino soubesse do adultério
da mãe, vendeu sua fazenda em Cunha e comprou um sítio
em Ubatuba... Na mudança, enquanto desciam a serra, Gorinho
prometia à seu pai que nunca transpassaria a serra de volta...
De repente surge no meio do caminho um homem irado, no qual desfechou
no peito de Juca um tiro de garrucha... Antes de morrer, Juca conta
a história do paradeiro da mãe ao filho, e pede vingança.
Gorinho plantou no local da morte do pai uma cruz. A CRUZ de FERRO.
Onze anos passados, Gorinho reconhece no comércio de Ubatuba,
Basílio, o assassino de seu pai que já estava de partida...
Era o dia... Armou a tocaia e no mesmo lugar onde morrera o pai,
vingou-lhe a morte, com uma punhalada que atingiu o coração
de Basílio. Rasgou um trapo da camisa ensangüentada
do morto, amarrou na cruz e falou em seguida:
- Pai ! Estás vingado ! Eis aqui, ainda quente o sangue de
quem te fez desgraçado...”
Do lendário
popular Ubatubano e do livro “UBATUBA lendas & outras
histórias” de Washington de Oliveira – seo Filhinho.
SINOPSE: Júlio César Mendes – julinho –
26/07/2000 |
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GUAPURUVU
- Uma lenda Tupinambá
À noite, na hora que era depois do jantar e antes do sono
aparecer, todos se reuniam ao redor da fogueira para ouvir as histórias
que os mais antigos tinham aprendido com os ancestrais.
O mais antigo dos antigos sempre escolhia quem ia contar a história
e nesse dia o tamoio Aimberê foi o escolhido e contou sua
lenda preferida, a do Guapuruvu.
“Há muitas e muitas luas, quando nem tudo existia,
viveu um guerreiro tupinambá chamado Guapuruvu. Era um jovem
corajoso e muito forte. Uma noite não conseguia dormir agitado
por uma inexplicável palpitação interior. Depois
de se remexer na rede, resolveu sair e caminhar um pouco. Era noite
de lua nova e o escuro era como breu. Sem afastar-se muito da aldeia
foi caminhando em direção à mata quando viu
um vulto dourado passando rápido por entre as folhagens.
Como era um corajoso guerreiro e um pouco inconseqüente por
ser jovem foi atrás daquele brilho de ouro embrenhando-se
na mata, silencioso como um grande (gato do mato, jaguar ?). Assim
atraído pela luz, chegou à nascente do rio perequê-açú
.
Quase perdeu os sentidos quando viu uma linda mulher de longos cabelos
negros e corpo dourado banhando-se nas águas da nascente.
Cada gota d’água que tocava nela transformava-se na
mais pura e brilhante pepita de ouro que rolava para dentro do rio.
Guapuruvu sentia seu coração bater tão forte
que temeu que saísse do seu peito fazendo com que a formosa
moça percebesse a sua presença. Ficou ali deslumbrado,
hipnotizado até o dia amanhecer quando voltou para a aldeia.
Sua família já havia notado sua ausência mas
por mais que perguntassem Guapuruvu nada dizia. Os dias foram passando
e todos da tribo começaram a notar o olhar perdido que o
guerreiro lançava à mata e a agitação
que tomava conta dele quando a noite chegava.
O rapaz esperava ansioso pela lua nova pois pretendia encontrar
sua amada novamente. Assim fez. Na primeira noite da lua nova esperou
que todos dormissem e foi para onde viu a moça dourada .Ficou
à espreita a noite toda e nada. De manhã retornou
à aldeia com o coração apertado. Nesse dia
não conseguiu nem caçar nem pescar direito. Os outros
perguntavam o que ele tinha mas ele nada dizia.
Na noite seguinte foi novamente. A escuridão era tanta que
nem os vaga lumes apareceram. Tateando, tropeçando, machucando-se
nos cipós Guapuruvu chegou à nascente do rio. Quando
já estava quase desistindo viu uma luz aproximar-se e transformar-se
na linda jovem. Sem conseguir se conter soltou uma exclamação
atraindo a atenção dela que rapidamente fugiu deixando
atrás de si um rastro de poeira púrpura.
O rapaz ficou tão desolado que passou horas chorando à
beira da nascente pedindo a ela que voltasse. Não percebeu
que o dia clareou e anoiteceu.
A moça, após o susto passar, sentindo-se atraída
por aqueles lamentos tristes e aquelas juras de amor que o rapaz
não cansava de repetir resolveu voltar ao seu recanto na
nascente do rio. Ao ver o rapaz também seu coração
bateu forte e desta vez ela não fugiu. Guapuruvu passou como
um relâmpago da profunda tristeza para a maior felicidade
e lançando-se aos pés da amada jurou-lhe amor eterno.
A Mãe do Ouro, era assim que ela se chamava, foi sincera
com o rapaz dizendo-lhe:
- Corajoso guerreiro chamado Guapuruvu, sou guardiã das florestas
e protetora dos animais.Venho aqui banhar-me pois minha missão
é criar pepitas de ouro. Não posso casar-me com você,
nem dar-lhe filhos como as moças de sua tribo, mas correspondo
ao seu amor. Só posso encontrá-lo nas noites de lua
nova. Saiba que se você aceitar-me assim, sofrerá pois
seus parentes não compreenderão porque você
não pode se casar como todos os outros.
Apaixonado
Guapuruvu aceitou e daí por diante em todas as noites de
lua nova saía da aldeia para encontrar e amar a Mãe
do Ouro. Ele percebia que enquanto para ele o tempo passava e ia
envelhecendo, para ela nada mudava . Ela continuava sempre jovem
e bonita. Mas o amor dos dois não se afetava com isso.
Um dia sentiu que aquela seria sua última lua. Com dificuldade
chegou à nascente do rio. A Mãe do Ouro já
o aguardava:
-Você sabe minha amada que estou partindo para o outro lado
mas não posso deixá-la.
Abraçaram-se longamente e quando Guapuruvu fechou os olhos
transformou-se numa grande árvore frondosa de madeira forte
bem ao pé da nascente de onde poderia ver para sempre sua
amada banhando-se.
-Querido amado Guapuruvu nosso amor será eternizado nas tuas
raízes, no seu tronco e nos seus fortes galhos. Servirá
aos seus quando for transformado em canoa de um pau só.
Por isso quando em noite de lua nova vemos um rastro de ouro passeando
pela mata é a Mãe do Ouro que vem namorar o Guapuruvu.
Mariza Taguada
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| A
lenda do Corpo Seco
“Um rapaz
chamado Dinico, suicidou-se, enforcando-se no galho de uma árvore
sobre o rio Lagoa. Seu corpo a terra não aceitou; era enterrar
que no outro dia o corpo estava sobre a sepultura. Isso foi devido
a uma praga de mãe, praga de sua mãe, que antes de
morrer pediu-lhe água para beber e ele jogou brasa sobre
a pobre velha. Levaram o corpo para o morro da prainha. Passou então
a assombrar moradores e pescadores com gritos pedindo para que o
levassem para a barra da lagoa... Assim fizeram... enterraram o
corpo na barra da Lagoa...
Uma moça colhia, as margens do rio lagoa, enfeites e flores
para o presépio de natal, quando se retirava, ouviu uma voz:
-Moça aqui tem mais.
Voltou-se. Soltou um grito agudo e caiu sem sentidos. O cepo que
há pouco lhe fornecera delicadas plantas, mudava-se de posição,
deixando transparecer perfeitamente as formas de um corpo humano,
ressecado e corroído pela ação do tempo.
Dizem que até hoje ali está o corpo do degenerado
que a terra não quis receber, atendendo aos rogos da velha
mãe.”
Do lendário
popular Ubatubano e do livro “UBATUBA lendas & outras
histórias” de Washington de Oliveira – seo Filhinho.
SINOPSE: Júlio César Mendes – julinho –
04/07/1999 |
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A
Lenda do Boi Chorão - Sumidouro
“Oh
quando o mundo for se acabar. O planeta do céu na terra desce.
O sol não dá clarão. Estrela também
não brilha. O mundo é escuridão. A lua não
aparece”.
É isso que sempre, seo Dito Fernandes, canta em sua canção,
na batida da Congada de Bastões do sertão do Puruba.
E quem confirma isso é dona Antonia dos Santos Mariano, de
92 anos e seu filho Mário Alfredo Mariano, caiçaras
que me contaram e que agora renovamos a história do bairro
do Sumidouro e a Lenda do Boi Chorão.
“E isso realmente aconteceu. Foi no tempo dos dinossauros.
Veio um planeta do céu e bateu aqui na terra; foi um estrondo
só, tudo escureceu; deslocou o eixo da terra e o mar que
banhava esses pés de morros, foi lá prá onde
hoje está, na praia do Perequê-Açú. Aqui
ficou um grande perau(1). Esse perau o tempo foi aterrando com lama
misturada com restos de animais e vegetais que a enxurrada trazia.
Formou um grande brejo, que o índio chamava de Itaorna(2).
Nunca que os índios construíram suas casas e aldeias
nesse lugar que hoje nós caiçaras chamamos de Sumidouro
e que aqui moramos, diferentemente dos índios.
Aqui apareceu um fazendeiro chamado Zé Duarte. Tinha lá
seus boizinhos que vez ou outra desaparecia um, pensava que fosse
onça ou até mesmo algum ladrão de gado. Tinha
ele um boizinho preto com cabeça em pelagem amarelo caramelado.
Dizia Ele ser um boi encantado, gostava de musica e de dança,
gostava do sol, da lua, das estrelas, dos cometas, dos vaga-lumes,
dos fifós(3), das ardentias(4) do mar e tudo que brilhava;
mais diferente ainda era seu mugido, mugia feito choro de criança.
Coisa estranha! Era o Boi Chorão que um dia andando por essa
encosta de morro avistou uma luz refletindo de uma nascente ao pé
no morro, e, deserdando do rebanho lá foi saciar sua sede,
seguindo o brilho da nascente.
Aquela nascente tinha um mistério, ali avistava-se uma luz
de intenso brilho que tanto em noite de luar como em dia de calor
vagava de um lugar para outro; uns diziam que era o Boitatá(5),
mas era a Mãe do Ouro(6), porque vovô dizia que debaixo
daquela nascente tinha uma mina de ouro.
O boi desceu o queixo, fechou os olhos e foi saciando sua sede.
Não percebia que a cada gole d’água ia se afundando,
quando deu por si nem o rabo mais podia abanar. Já era tarde
e por toda noite ouviu-se o eco choroso e melancólico sumindo
no sumidouro. Lá se foi mais um boi de seu Zé Duarte,
desta vez foi o Chorão, um boi de estimação,
que pelo seu estigma adorava a luminosidade e tinha algo de encantado
dentro de si.
O boi afundou, sumiu no sumidouro, viajou terra adentro...
Era o que queria, estava no paraíso ! Em caminho incandescente,
boi em luz se transformou. Chegou numa redoma de ouro onde encontrou
e conheceu a Mãe do Ouro, uma linda mulher de cabelos dourados
que radiava luz e calor. Esta então lhe falou:
“- Serás um BOITATÁ. Terás duas missões;
uma é proteger as campinas e florestas da Mata Atlântica,
castigando quem põe fogo e derruba as mossas matas. –
Terás também Fogo-Fátuo(7), Santelmo. A outra
missão é de levar alegria às pessoas. Serás
um Boi-de-fogo e terás olhos de fogo. Suas lágrimas
se transformarão em canto e dança. – Vá
e cumpra sua missão !“
Éééé ! Foi essa a ordem da Mão
do Ouro ao boi Chorão do Sumidouro; castigar quem a mata
destrói e alegrar com sua dança quem tem tristeza
no coração.
Essa é a missão do Boi Chorão do Sumidouro
!
Viva o Boi Chorão !
(Júlio
César Mendes – julinho – 30/07/205)
VOCABULÁRIO:
(1) PERAU: Buraco ou depressão na beira ou no fundo do mar
e rios.
(2) ITAORNA: Do Tupi-Guarani: Pedra mole, terra que afunda.
(3) FIFÓ: Tocha de fogo para clarear caminhos e lugares na
escuridão.
(4) ARDENTIA: Fosforescências do mar, à noite.
(5) BOITATÁ: Ente mitológico, protetor dos campos
e florestas, aparece em forma de serpente ou boi, que emana o fogo
fátuo.
(6) MÃE DO OURO: Esfera luminosa que surge numa serra e voa
cruzando o seu de um lado ao outro, emanando o fogo fátuo.
(7) FOGO FÁTUO ou SANTELMO: Fosfato de Hidrogênio emanado
pela decomposição de substâncias animais ou
vegetais.
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