A lenda do Boi de Conchas

O Boi de Conchas, genuinamente de Ubatuba, surgiu no movimento cultural Pirão Geral, baseado na lenda de autoria do contista Julinho Mendes, que conta a saga de um boi nascido na cidade serrana de São Luís do Paraitinga, num dia de São Pedro Pescador.
Cresceu com a promessa de seu dono, de um dia levá-lo a conhecer o mar, e que, tempo mais tarde, se dirigiu sumindo no imenso oceano, depois de mudar o próprio destino que era o de ser morto num matadouro na cidade de Ubatuba; reapareceu saindo do mar tempos depois ao som de uma viola; coberto de conchas e envolto por seres marinhos.
 

A Lenda da Gruta que Chora - Praia da Sununga (Do Tamoio ao Caiçara)

Sununga: Lugar de barulho. Parada das trovoadas. Redutos das ondas estrondeantes. Moradia dos seres uivantes. Praia do Deus Tupã. Lugar venerado pelos Tamoios.
Em seu canto esquerdo, uma gruta, naturalmente escavada no rochedo. Ali os pajés se reuniam e celebravam seus rituais ao Deus Tupã.

Estranhou-se certa época o silêncio da Sununga, aquele lugar de barulho calara-se. Diante de tal fato, e, curiosos em querer saber o porque daquela situação, os silvícolas dirigiram-se para a praia. O mar estava calmo como nunca esteve: nem ventos, nem trovões, nem pássaros a gorjear... o silêncio era total. Na areia um grande rastro que atravessava de um canto a outro da praia, indo em direção a gruta. No interior da gruta observava-se algo nunca visto, escuro e enrodilhado, parecendo ser uma grande cobra. Reunidos e receosos os pajés decidiram não molestar tal ser, pois achavam ser algo destinado pelo Deus Tupã. Desde então, sempre em dias de Jacyassú, jovens donzelas eram atraídas para aquela praia, dessas, muitas nunca mais voltavam e outras voltavam sem o gosto pela vida: não trabalhavam, não comiam, não bebiam, enfim aniquilavam-se até a morte... Achavam os pajés ser coisa da grande serpente. Assim queria o Deus Tupã...

Era o período das flores e a nona pituna jacyassú estava pra chegar. Dois grandes acontecimentos estavam marcados para acontecer: Um era o casamento da jovem Arecê, filha do Cacique Pindobussu, com o jovem guerreiro Camuri, filho do pajé Tijuaê. O outro acontecimento era a chegada de dois missionários brancos.
A sununga continuava em seu silêncio...

Amanhecera um dia lindo com céu azul, águas brilhantes, sol radiante. A noite seria maravilhosa, a festa seria grandiosa, pois era o dia de jacyassú.
Os jesuítas já se faziam presentes, com suas vestes estranhas carregavam um cajado e uma cruz presa a um cordão sobre o pescoço. Vieram trazer a paz e ensinar o amor de um novo Deus, diferente de Tupã. Fariam também o enlace matrimonial do jovem casal.

O sol se punha atrás do pico do Corcovado e ao iniciar o serão, ouviu-se um horripilante silvo seguido de um grito, vindo da sununga...
A grande jacyassú já anunciava seu clarão. Era chegado a hora ! Todos esperavam a linda Arecê, noiva de Camuri, este que já estava no altar de flores, conchas e plumas das mais diversas aves da fauna local. A lua saiu e ergueu-se ao seu máximo zênite. Arecê não apareceu... Aquele grito era de Arecê...

Toda tribo seguiu para a Sununga. Arecê estava lá em prantos, isolada e enfeitiçada, sobre uma pequena mancha de sangue...
Nem arcos e flechas, nem lanças e nem pajelanças, atingiam aquele terrível ser da gruta.
Atingido em sua alma, Camuri tinha um único recurso: Recorrer aos jesuítas.
- Quero ver o seu Deus expulsar aquele terrível dragão!

As dores também lhes eram grandes, e impulsionados pela fé, Nóbrega e Anchieta seguiram em direção da gruta. Nóbrega ajoelhou-se e pôs-se em prece, Anchieta estendeu as mãos e riscou no ar o abençoado sinal da cruz. Uma oração foi feita... Uma onda encapelou em ruidoso marulhar e adentrou-se à gruta, extraindo de seu interior o temível ser: metade dragão, metade serpente.

- Não voltarás mais aqui enquanto esse povo existir ! Proferiu Anchieta.
O Feitiço foi quebrado, Arecê se restituiu e o casamento aconteceu. Diante do milagre os silvícolas foram aprendendo a gostar do novo Deus. A Sununga voltou a ser o que era: lugar de estrondosas ondas, parada das trovoadas, lugar de barulho.
“- Não voltarás mais aqui enquanto esse povo existir !”

Do homem pré-histórico ao genocídio dos Tamoios, a sununga, assim como sua gruta, sempre existiu. Resiste aos povos, resiste ao tempo...
Amarelos, brancos e negros. Índios, portugueses e escravos. Nessa miscigenação de raças surge o Caiçara; homem de terra e mar, lavrador e pescador; religioso, ordeiro e festeiro, povo de fé e liberto em sua terra; assim como o índio e o negro o eram. Em cada praia um pessoal, em cada pessoal um Cabral, um Souza, um Graça, um Pereira, um Barreto,... Nomes de Portugal, assim como Joaquim, Manoel, Maria... Nascia Marcelina, graciosa donzela, morena de olhos verdes, cabelos lisos, parecendo índia; mistura dos Graças com os Pereiras. Moça forte, prestativa, alegre e viva. Morava com seus pais no pé do morro daquela península, entre a Sununga e o Lázaro.

A Sununga como sempre, bravia e ruidosa. O lázaro, um mar em espelho, sempre manso e liso. Era da Sununga que Marcelina gostava. Gostava de seu barulho, de suas ondas, de seu jundú. A tarde ia pra lá e fica contemplando aquela beleza desértica. Certo dia estranhou o silêncio da Sununga. No canto, observou algo estranho adentrando a gruta. Voltou impressionada com aquilo, lembrando da história que os pescadores contavam sobre um tal dragão.

Findava a pesca da tainha e uma festa em agradecimento à São Pedro pela boa pescaria acontecia na casa do compadre Bastião. A congada e o xiba iam até o raiar do sol. Marcelina não foi, estava com dor de cabeça e preferiu rezar o terço. Foi a mãe, o pai e o irmão caçula. Tainha assada e consertada não faltou. Os bate-paus da congada e os tamanqueados do Xiba ecoava pelos cafundós do Lázaro. João abusou da concertada e veio abraçado com Maria e Pedrinho. Os galos dos terreiros já anunciavam o novo dia. Ao se aproximar de casa observaram um vulto saindo de trás da casa, indo para a sununga. Em casa Maria ouviu soluços no quarto da menina; Marcelina chorava. O lençol da cama estava manchado de sangue.

- O que aconteceu minha filha, porque choras? Perguntou a mãe.
- Estou sangrando mamãe e não consegui dormir esta noite!
- Calma minha filha, não se preocupe, isso é coisa de mulher, é sua primeira menstruação. Vou fazer um chá para você dormir.

Marcelina dormiu... Desse dia em diante Marcelina não mais saiu de casa, não fazia seus afazeres, não se alimentava direito, e nem o terço rezava. Pensava a mãe ser aquele problema de mulher. Mas o período de menstruação passou e Marcelina continuava em sua penumbra; cada dia mais magra e pálida. Toda noite soluçava...
Certa noite quem chorava era a mãe Maria; estava diante do oratório e pedia a padroeira Aparecida que quebrasse a penumbra da filha. Marcelina vendo o sofrimento da mãe contou-lhe a verdade de seu estado:

“-Sabe mãe? Naquela tarde que antecedeu a festa de agradecimento, eu fui até a praia da Sununga... o mar estava calmo como nunca vi, não tinha onda e nem os pássaros cantavam. Fiquei admirando aquela beleza quando de repente um bicho estranho saiu do mar e entrou na gruta, pensava que fosse um grande lagarto; continuei ali e mais uma surpresa me veio ao olhar: Um moço louro saiu da gruta e veio em minha direção, senti muito medo, mas não conseguia me mexer; o homem veio vindo, veio vindo e se achegou a mim... era lindo, tinha os olhos azuis; colocou a mão na minha cabeça e depois me beijou; de repente saiu correndo e mergulhou naquele mar quieto... Depois que vocês foram à festa eu fui deitar. No meu quarto surgiu aquele bicho que tinha visto na praia... fiz forças para gritar, mas nada saia de minha boca... procurei o terço e não achei... Aquela cobra começou a se enrodilhar e foi se transformando naquele moço louro de olhos azuis... Ficou comigo a noite toda e só foi embora quando ouviu o primeiro canto do galo. Me apareceu mais três noites e não mais voltou ! Aquele homem me enfeitiçou, mãe... agora não tenho vontade para nada... quero morrer mãe... quero morrer !!!”

Aquela história convenceu Maria, que ao amanhecer já estava na sacristia da igreja revelando o fato ao padre daquela paróquia. Aquela história não era nova ao padre, já tinha ouvido de seus superiores no período de estudos, e também de populares sobre a lenda da Sununga. Foi se haver com Marcelina... Beatas e religiosos faziam fervorosas orações na casa de José... O padre então constatou a profunda penumbra da menina. Prevenido em fé e orações o padre se dirigiu, acompanhado dos fieis, em direção a gruta da praia da Sununga... Pediu que os fiéis ficassem a uma certa distancia e dessem as mãos em orações... Levando numa das mãos um cálice com água, dirigiu-se sozinho por cima da gruta, lá então estendeu a mão direita e riscou no ar o abençoado sinal da Santa Cruz e em seguida jogou sobre a gruta a água benta contida num cálice... Uma onda encapelou em ruidoso marulhar adentrou-se à gruta, extraindo de seu interior o temível ser: metade dragão, metade serpente.

Em meio à oração o Santo Padre proferiu as seguintes palavras:

-Não voltarás mais aqui enquanto esse povo Caiçara existir !   E faça Deus que essa gruta, aos poucos, seja entupida pelas areias da praia, jogadas pelas ondas desse mar.”

Marcelina voltou a ser aquela linda morena caiçara, cheia de saúde, vida e alegria.
A gruta passou a chorar... Dizem os fiéis católicos que aquelas gotas que pingam de dentro da caverna são da água benta jogado pelo Santo Padre.

“- Não voltarás mais aqui enquanto o povo caiçara existir !” Fica aí a profecia.
Dos verdadeiros caiçaras restam poucos...
Quem viu e quem vê, nota que a gruta encontra-se em processo de fechamento e os caiçaras encontram-se em processo de extinção...
O homem pré histórico sumiu, a serpente apareceu aos Índios. O Índio sumiu, a serpente apareceu aos Caiçaras.
O caiçara sumindo, pode ter a certeza que o dragão-serpente aparecerá enfeitiçando as donzelas dos novos povos que habitarão essa região.

Júlio César Mendes – julinho – 24/12/2003


Nota:
A Lenda da Gruta que Chora da praia da Sununga é uma importante lenda do folclore Ubatubano. Idalina do Amaral Graça, em seu livro “Terra Tamoia” retrata a lenda na época em que aqui viviam os silvícolas em fase de catequização por Anchieta e Nóbrega. Já Washington de Oliveira – “seo Filhinho”, em seu livro “UBATUBA, lendas e outras histórias”, retrata a Lenda da Sununga, junto ao povo Caiçara.
Tentando tornar a lenda numa só história, ou estória, Eu, Júlio César Mendes, faço uma unifica versão, retratando a história de Idalina com a de seo Filhinho; fazendo com que a lenda seja a mesma, com o mesmo dragão-serpente assim como a gruta e a praia da Sununga sempre foram e sempre serão as mesmas.
A serpente voltará ! Está surgindo o MINESTIRA; povo mistura de Mineiro, Nordestino e Caiçara. A serpente voltará !
Versão publicada em junho/2006 no volume V da Enciclopédia Caiçara “Festas, Lendas e Mitos Caiçaras”, organizada pelo antropólogo da USP e diretor cientifico da NUPAUB – Antonio Carlos Diegues.

 

Cruz de Ferro

“Morava Juca Mineiro com sua amada Mariazinha e o recem nascido Gregório (gorinho), numa fazendinha lá pros sertões da cidade de Cunha.
Mariazinha veio a conhecer o tão falado galanteador Basílio; não resistiu aos seus encantos e não tardou a verem à galopes na garupa com Basílio, lá pro lado da Mantiqueira.
Gorinho já com 12 anos, perguntava sobre a mãe... Juca então não querendo que o menino soubesse do adultério da mãe, vendeu sua fazenda em Cunha e comprou um sítio em Ubatuba... Na mudança, enquanto desciam a serra, Gorinho prometia à seu pai que nunca transpassaria a serra de volta... De repente surge no meio do caminho um homem irado, no qual desfechou no peito de Juca um tiro de garrucha... Antes de morrer, Juca conta a história do paradeiro da mãe ao filho, e pede vingança. Gorinho plantou no local da morte do pai uma cruz. A CRUZ de FERRO.
Onze anos passados, Gorinho reconhece no comércio de Ubatuba, Basílio, o assassino de seu pai que já estava de partida... Era o dia... Armou a tocaia e no mesmo lugar onde morrera o pai, vingou-lhe a morte, com uma punhalada que atingiu o coração de Basílio. Rasgou um trapo da camisa ensangüentada do morto, amarrou na cruz e falou em seguida:
- Pai ! Estás vingado ! Eis aqui, ainda quente o sangue de quem te fez desgraçado...”

Do lendário popular Ubatubano e do livro “UBATUBA lendas & outras histórias” de Washington de Oliveira – seo Filhinho.
SINOPSE: Júlio César Mendes – julinho – 26/07/2000

 

GUAPURUVU - Uma lenda Tupinambá

À noite, na hora que era depois do jantar e antes do sono aparecer, todos se reuniam ao redor da fogueira para ouvir as histórias que os mais antigos tinham aprendido com os ancestrais.
O mais antigo dos antigos sempre escolhia quem ia contar a história e nesse dia o tamoio Aimberê foi o escolhido e contou sua lenda preferida, a do Guapuruvu.

“Há muitas e muitas luas, quando nem tudo existia, viveu um guerreiro tupinambá chamado Guapuruvu. Era um jovem corajoso e muito forte. Uma noite não conseguia dormir agitado por uma inexplicável palpitação interior. Depois de se remexer na rede, resolveu sair e caminhar um pouco. Era noite de lua nova e o escuro era como breu. Sem afastar-se muito da aldeia foi caminhando em direção à mata quando viu um vulto dourado passando rápido por entre as folhagens.
Como era um corajoso guerreiro e um pouco inconseqüente por ser jovem foi atrás daquele brilho de ouro embrenhando-se na mata, silencioso como um grande (gato do mato, jaguar ?). Assim atraído pela luz, chegou à nascente do rio perequê-açú .
Quase perdeu os sentidos quando viu uma linda mulher de longos cabelos negros e corpo dourado banhando-se nas águas da nascente. Cada gota d’água que tocava nela transformava-se na mais pura e brilhante pepita de ouro que rolava para dentro do rio.
Guapuruvu sentia seu coração bater tão forte que temeu que saísse do seu peito fazendo com que a formosa moça percebesse a sua presença. Ficou ali deslumbrado, hipnotizado até o dia amanhecer quando voltou para a aldeia.
Sua família já havia notado sua ausência mas por mais que perguntassem Guapuruvu nada dizia. Os dias foram passando e todos da tribo começaram a notar o olhar perdido que o guerreiro lançava à mata e a agitação que tomava conta dele quando a noite chegava.

O rapaz esperava ansioso pela lua nova pois pretendia encontrar sua amada novamente. Assim fez. Na primeira noite da lua nova esperou que todos dormissem e foi para onde viu a moça dourada .Ficou à espreita a noite toda e nada. De manhã retornou à aldeia com o coração apertado. Nesse dia não conseguiu nem caçar nem pescar direito. Os outros perguntavam o que ele tinha mas ele nada dizia.

Na noite seguinte foi novamente. A escuridão era tanta que nem os vaga lumes apareceram. Tateando, tropeçando, machucando-se nos cipós Guapuruvu chegou à nascente do rio. Quando já estava quase desistindo viu uma luz aproximar-se e transformar-se na linda jovem. Sem conseguir se conter soltou uma exclamação atraindo a atenção dela que rapidamente fugiu deixando atrás de si um rastro de poeira púrpura.
O rapaz ficou tão desolado que passou horas chorando à beira da nascente pedindo a ela que voltasse. Não percebeu que o dia clareou e anoiteceu.

A moça, após o susto passar, sentindo-se atraída por aqueles lamentos tristes e aquelas juras de amor que o rapaz não cansava de repetir resolveu voltar ao seu recanto na nascente do rio. Ao ver o rapaz também seu coração bateu forte e desta vez ela não fugiu. Guapuruvu passou como um relâmpago da profunda tristeza para a maior felicidade e lançando-se aos pés da amada jurou-lhe amor eterno. A Mãe do Ouro, era assim que ela se chamava, foi sincera com o rapaz dizendo-lhe:

- Corajoso guerreiro chamado Guapuruvu, sou guardiã das florestas e protetora dos animais.Venho aqui banhar-me pois minha missão é criar pepitas de ouro. Não posso casar-me com você, nem dar-lhe filhos como as moças de sua tribo, mas correspondo ao seu amor. Só posso encontrá-lo nas noites de lua nova. Saiba que se você aceitar-me assim, sofrerá pois seus parentes não compreenderão porque você não pode se casar como todos os outros.

Apaixonado Guapuruvu aceitou e daí por diante em todas as noites de lua nova saía da aldeia para encontrar e amar a Mãe do Ouro. Ele percebia que enquanto para ele o tempo passava e ia envelhecendo, para ela nada mudava . Ela continuava sempre jovem e bonita. Mas o amor dos dois não se afetava com isso.

Um dia sentiu que aquela seria sua última lua. Com dificuldade chegou à nascente do rio. A Mãe do Ouro já o aguardava:
-Você sabe minha amada que estou partindo para o outro lado mas não posso deixá-la.
Abraçaram-se longamente e quando Guapuruvu fechou os olhos transformou-se numa grande árvore frondosa de madeira forte bem ao pé da nascente de onde poderia ver para sempre sua amada banhando-se.

-Querido amado Guapuruvu nosso amor será eternizado nas tuas raízes, no seu tronco e nos seus fortes galhos. Servirá aos seus quando for transformado em canoa de um pau só.

Por isso quando em noite de lua nova vemos um rastro de ouro passeando pela mata é a Mãe do Ouro que vem namorar o Guapuruvu.

Mariza Taguada

A lenda do Corpo Seco

“Um rapaz chamado Dinico, suicidou-se, enforcando-se no galho de uma árvore sobre o rio Lagoa. Seu corpo a terra não aceitou; era enterrar que no outro dia o corpo estava sobre a sepultura. Isso foi devido a uma praga de mãe, praga de sua mãe, que antes de morrer pediu-lhe água para beber e ele jogou brasa sobre a pobre velha. Levaram o corpo para o morro da prainha. Passou então a assombrar moradores e pescadores com gritos pedindo para que o levassem para a barra da lagoa... Assim fizeram... enterraram o corpo na barra da Lagoa...

Uma moça colhia, as margens do rio lagoa, enfeites e flores para o presépio de natal, quando se retirava, ouviu uma voz: -Moça aqui tem mais.
Voltou-se. Soltou um grito agudo e caiu sem sentidos. O cepo que há pouco lhe fornecera delicadas plantas, mudava-se de posição, deixando transparecer perfeitamente as formas de um corpo humano, ressecado e corroído pela ação do tempo.
Dizem que até hoje ali está o corpo do degenerado que a terra não quis receber, atendendo aos rogos da velha mãe.”

Do lendário popular Ubatubano e do livro “UBATUBA lendas & outras histórias” de Washington de Oliveira – seo Filhinho.
SINOPSE: Júlio César Mendes – julinho – 04/07/1999

A Lenda do Boi Chorão - Sumidouro

“Oh quando o mundo for se acabar. O planeta do céu na terra desce. O sol não dá clarão. Estrela também não brilha. O mundo é escuridão. A lua não aparece”.
É isso que sempre, seo Dito Fernandes, canta em sua canção, na batida da Congada de Bastões do sertão do Puruba. E quem confirma isso é dona Antonia dos Santos Mariano, de 92 anos e seu filho Mário Alfredo Mariano, caiçaras que me contaram e que agora renovamos a história do bairro do Sumidouro e a Lenda do Boi Chorão.

“E isso realmente aconteceu. Foi no tempo dos dinossauros. Veio um planeta do céu e bateu aqui na terra; foi um estrondo só, tudo escureceu; deslocou o eixo da terra e o mar que banhava esses pés de morros, foi lá prá onde hoje está, na praia do Perequê-Açú. Aqui ficou um grande perau(1). Esse perau o tempo foi aterrando com lama misturada com restos de animais e vegetais que a enxurrada trazia. Formou um grande brejo, que o índio chamava de Itaorna(2). Nunca que os índios construíram suas casas e aldeias nesse lugar que hoje nós caiçaras chamamos de Sumidouro e que aqui moramos, diferentemente dos índios.

Aqui apareceu um fazendeiro chamado Zé Duarte. Tinha lá seus boizinhos que vez ou outra desaparecia um, pensava que fosse onça ou até mesmo algum ladrão de gado. Tinha ele um boizinho preto com cabeça em pelagem amarelo caramelado. Dizia Ele ser um boi encantado, gostava de musica e de dança, gostava do sol, da lua, das estrelas, dos cometas, dos vaga-lumes, dos fifós(3), das ardentias(4) do mar e tudo que brilhava; mais diferente ainda era seu mugido, mugia feito choro de criança. Coisa estranha! Era o Boi Chorão que um dia andando por essa encosta de morro avistou uma luz refletindo de uma nascente ao pé no morro, e, deserdando do rebanho lá foi saciar sua sede, seguindo o brilho da nascente.
Aquela nascente tinha um mistério, ali avistava-se uma luz de intenso brilho que tanto em noite de luar como em dia de calor vagava de um lugar para outro; uns diziam que era o Boitatá(5), mas era a Mãe do Ouro(6), porque vovô dizia que debaixo daquela nascente tinha uma mina de ouro.

O boi desceu o queixo, fechou os olhos e foi saciando sua sede. Não percebia que a cada gole d’água ia se afundando, quando deu por si nem o rabo mais podia abanar. Já era tarde e por toda noite ouviu-se o eco choroso e melancólico sumindo no sumidouro. Lá se foi mais um boi de seu Zé Duarte, desta vez foi o Chorão, um boi de estimação, que pelo seu estigma adorava a luminosidade e tinha algo de encantado dentro de si.
O boi afundou, sumiu no sumidouro, viajou terra adentro...

Era o que queria, estava no paraíso ! Em caminho incandescente, boi em luz se transformou. Chegou numa redoma de ouro onde encontrou e conheceu a Mãe do Ouro, uma linda mulher de cabelos dourados que radiava luz e calor. Esta então lhe falou:

“- Serás um BOITATÁ. Terás duas missões; uma é proteger as campinas e florestas da Mata Atlântica, castigando quem põe fogo e derruba as mossas matas. – Terás também Fogo-Fátuo(7), Santelmo. A outra missão é de levar alegria às pessoas. Serás um Boi-de-fogo e terás olhos de fogo. Suas lágrimas se transformarão em canto e dança. – Vá e cumpra sua missão !“

Éééé ! Foi essa a ordem da Mão do Ouro ao boi Chorão do Sumidouro; castigar quem a mata destrói e alegrar com sua dança quem tem tristeza no coração.
Essa é a missão do Boi Chorão do Sumidouro !
Viva o Boi Chorão !

(
Júlio César Mendes – julinho – 30/07/205)

VOCABULÁRIO:
(1) PERAU: Buraco ou depressão na beira ou no fundo do mar e rios.
(2) ITAORNA: Do Tupi-Guarani: Pedra mole, terra que afunda.
(3) FIFÓ: Tocha de fogo para clarear caminhos e lugares na escuridão.
(4) ARDENTIA: Fosforescências do mar, à noite.
(5) BOITATÁ: Ente mitológico, protetor dos campos e florestas, aparece em forma de serpente ou boi, que emana o fogo fátuo.
(6) MÃE DO OURO: Esfera luminosa que surge numa serra e voa cruzando o seu de um lado ao outro, emanando o fogo fátuo.
(7) FOGO FÁTUO ou SANTELMO: Fosfato de Hidrogênio emanado pela decomposição de substâncias animais ou vegetais.


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